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Publicado: quinta-feira, 20 de outubro de 2016

AACD – Crise no Brasil e o Impacto no Terceiro Setor


Histórico/Antecedentes/Circunstâncias


O ano de 2015 marcou a história da AACD – Associação de Assistência à Criança Deficiente. Inaugurada em agosto de 1950, a Instituição completou 65 anos de atividades, tendo mais de 20 milhões de atendimentos realizados, que possibilitaram beneficiar aproximadamente 50 milhões de pessoas direta e indiretamente. Números expressivos para uma Instituição que tem em sua essência o trabalho voluntário e que demanda de doações das mais diversificadas fontes.
O ano deveria ser de festa, e até teve uma celebração a altura da Instituição, mas, por outro lado, foi marcado por um revés histórico: o fechamento de duas Unidades da AACD localizadas na cidade de São Paulo. Com uma infraestrutura até então composta por 15 Unidades, em sete Estados, seis oficinas ortopédicas e um hospital, o Conselho de Administração se viu diante da difícil decisão de encerrar as atividades da AACD Campo Grande (Zona Sul) e da AACD Santana (Zona Norte), ambas entregues em 2011. Desde 1998, com a realização do Teleton, a AACD deu início a um plano de expansão de forma a descentralizar e ampliar o atendimento à pessoa com deficiência física. A cada programa realizado, a Instituição garantia recursos para construir uma nova Unidade, geralmente entregue no ano seguinte. Até 2015, ano que teve a decisão de fechar as Unidades, os dois Centros foram responsáveis por mais de 120 mil atendimentos. Apesar disso, durante os quatro anos de atividades, Campo Grande e Santana tiveram raros momentos de prosperidade financeira enquanto conviveram com a realidade semelhante à de outras Unidades da AACD, que operavam linearmente entre a equalização das contas e o fechamento negativo dos balanços.
Tais fatores foram agravados diante do desequilíbrio financeiro causado quase que essencialmente pelo baixo valor de repasse do Sistema Único de Saúde (SUS), atualmente, com tabelas sem reajustes há mais de oito anos. Além disso, Campo Grande e Santana tiveram a situação ainda mais complicada pela promessa de repasses por parte do Governo Municipal e que nunca foram efetuados.


Problema/Desafio/Oportunidade


Inspirada nos seus próprios pacientes, que por meio das conquistas diárias apresentadas na evolução dos seus tratamentos mostram que romper barreiras é uma feliz rotina, a AACD, no auge dos seus 65 anos de atividades, se viu diante deste novo desafio: garantir que essas mesmas pessoas, que até então eram atendidas em Campo Grande e Santana, continuariam a ter motivos para acreditar na vitória sobre as dificuldades impostas pelos seus respectivos diagnósticos.
Com uma nova diretoria, focada no saneamento das contas, que sangravam ano a ano com a hemorragia financeira ocasionada pelo SUS, o planejamento para minimizar os impactos dessa decisão foi grande. Um detalhe curioso em meio a este processo talvez seja desconhecido do público em geral. A defasagem ocorrida entre o valor cobrado pelos atendimentos e o repassado pelo SUS fica ainda mais grave, contraditoriamente, por um fator positivo, já que 91% dos pacientes atendidos são via Sistema Único de Saúde, enquanto o Governo determina um percentual mínimo de 60% para que uma Instituição seja considerada filantrópica.
Ou seja, em prol da população, há anos a AACD opera além do seu esforço financeiro e do que preconiza a legislação brasileira para suprir a demanda por atendimento especializado e de qualidade para as pessoas com deficiência física.
Essa matemática de recursos exigiu um grande esforço do Conselho para garantir que nenhum paciente fosse prejudicado com a perda dos tratamentos decorrente do fechamento das Unidades.
Neste contexto, medidas extremas foram tomadas, entre uma das mais importantes destaca-se o fato de que todos os pacientes da Unidade Santana tiveram seus atendimentos remanejados para a AACD Mooca, exatamente nos mesmos dias e horários e, ainda, com o mesmo profissional que já vinha acompanhando a evolução individual de cada um.


Público a ser atingido


A decisão de encerrar as atividades dos dois Centros de Reabilitação impactaria diretamente 330 pacientes, em sua maioria vindos da Associação Brasileira de Distrofia Muscular (ABDIM). É importante destacar também que os pacientes da AACD Santana não possuíam um perfil de proximidade local, residindo em diversas regiões da cidade. Embora boa parte dos profissionais envolvidos nessa racionalização dos atendimentos tenha sido absorvida nas outras Unidades da AACD em São Paulo, alguns cortes, principalmente no setor administrativo, foram inevitáveis.


Plano/Estratégia de Marketing utilizada para atingir o(s) objetivo(s) proposto(s)


Mesmo com o cenário negativo obviamente projetado pelo encerramento das atividades dos dois Centros de Reabilitação, a AACD manteve a transparência necessária para informar a população sobre essa decisão. Para essa finalidade, envolveu a assessoria de imprensa no processo de organização das informações que seriam transmitidas aos formadores de opinião.
Em outra frente, a diretoria se reunia com profissionais da Instituição e com pacientes, orientando sobre os próximos passos do processo. As reuniões ocorreram diariamente tanto na sede da Instituição, como na AACD Mooca, Unidades que receberiam os pacientes envolvidos nessa transição.
Além disso, com o apoio intensivo do Serviço Social da AACD, o transporte dos pacientes ofertado pela Prefeitura, por meio do Atende, foi acionado e comunicado previamente sobre as mudanças nas grades e locais de atendimento de cada paciente, de forma que todos estivessem devidamente adaptados à nova realidade. Outro ponto chave dessa comunicação foi o de esclarecer que a transferência buscava a racionalização de custos e manutenção do atendimento de qualidade oferecido pela AACD ao longo de sua história.
Além disso, era importante pontuar ao público alguns fatores chaves, como o fato de que os prédios onde funcionavam as duas Unidades foram construídos com recursos do Governo do Estado e não com valores obtidos no Teleton, como algumas pessoas chegaram a sugerir no ápice das veiculações sobre o fechamento das Unidades. Todo esse esforço foi feito para que todos os pontos fossem esclarecidos antes do Teleton, com objetivo de evitar que a triste notícia sobre o encerramento das atividades dessas Unidades afetasse a imagem da AACD às vésperas do maior evento de captação de recursos promovido pela Instituição.


Execução/Ativação


Com participação direta da presidente voluntária da AACD, Regina Velloso, e do Superintendente Geral, Valdesir Galvan, as reuniões com os pacientes na sede da AACD e na Unidade Mooca ocorriam quase que diariamente e, em alguns casos, de manhã e de tarde.
A intenção era neutralizar com informações corretas e claras sobre a situação da AACD qualquer tipo de disseminação incorreta sobre os fatos, o que poderia colocar em risco toda a estratégia planejada para esse período. Nos encontros, presenciados por dezenas de pacientes, os gestores da AACD apresentaram o custo de manutenção da estrutura da AACD e o quanto era captado para dar conta deste montante. Na outra ponta do processo, em concordância com as diretrizes estabelecidas junto à diretoria da AACD, a assessoria de imprensa ia administrando as demandas com os jornalistas, procurando reverter em reportagens positivas algumas das solicitações que abordavam o fechamento das Unidades.
De agosto de 2015, quando ocorreu a primeira comunicação que as Unidades seriam entregues à Prefeitura, até o momento foram veiculadas mais de 75 reportagens na imprensa em geral sobre o assunto.
Dessas veiculações, foram consideradas positivas as matérias que abordaram os pontos chaves estabelecidos pela assessoria de imprensa e o Conselho de Administração. Ou seja, enfatizar que os pacientes não deixariam de ser atendidos e que a medida tinha como objetivo reduzir custos, antes que toda a Instituição se visse comprometida, o que seria uma catástrofe social para a população de pessoas com deficiência física no Brasil.


Resultados


Talvez o Teleton seja um dos principais termômetros de que o plano de comunicação e o trabalho junto ao público-alvo teve o sucesso esperado. Em meio à crise política e econômica que se desdobrava no Brasil, o programa registrou a maior arrecadação de todos os tempos: R$ 31.173.920,00.
O recorde de captação foi a resposta da população brasileira ao chamado da AACD, demonstrando, por meio das doações, que acredita e confia no trabalho promovido pela Instituição.
Obviamente o fechamento ou a redução da infraestrutura de uma Instituição filantrópica de saúde tão importante como a AACD não é um fator a ser comemorado. O propósito deste case não é enaltecer um cenário de crise, mas é o de documentar um processo intrínseco à história da Instituição: a transparência com o público-alvo. Todo esse processo, claro, tinha como objetivo minimizar todos os possíveis transtornos que a redução de custos poderia ocasionar aos pacientes, mas, acima de tudo, era o de apresentar os fatos a todas as pessoas que colaboram direta e indiretamente com a AACD e que há 66 anos acreditam no nosso trabalho.
É mostrar que como toda grande empresa – somos 2.057 colaboradores e 1.700 voluntários – a AACD sofreu e sofre com a crise estabelecida no Brasil, mas que jamais deixará de amparar o público a quem dedica todos os esforços ao longo da história. Certamente, assim como o País, sairemos desse período de turbulência fortalecidos. Temos consciência de que não estamos alheios aos fatores externos, como neste caso, com a crise instaurada no Brasil.
Como enfatizamos em nosso slogan, a vida é movimento. Porém, por vezes precisamos nos movimentar um ou dois passos para trás, a fim de ganharmos força novamente para seguir em frente e continuar, por outros 65 anos, a escrever histórias de superação, que nos farão ter orgulho de pertencer a esse seleto grupo da sociedade que tem um único ideal: fazer o bem.

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