vencedores - 2016

Publicado: quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Plano Digital – Estou Refugiado


Histórico/Antecedentes/Circunstâncias

A quantidade de pessoas forçadas a abandonar suas casas por causa de guerras ou desastres naturais passou dos 43 milhões de pessoas em todo o mundo - o equivalente à população total de Colômbia. Segundo dados divulgados nesta segunda (20) pelo Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (Acnur), em ocasião do Dia Internacional do Refugiado, 2010 teve o maior número de refugiados dos últimos 15 anos. Desse total, o relatório classifica 15,4 milhões como refugiados, ou seja, pessoas forçadas a abandonar seus países, 27,5 milhões como pessoas deslocadas de suas casas, mas em seus próprios países, e 850 mil solicitantes de asilo em outros países. Segundo a Acnur, apenas 25 milhões desse total recebem alguma assistência das Nações Unidas. O número de refugiados reconhecidos pelo Brasil entre 2010 e 2016 aumentou 127%, informa o Comitê Nacional para Refugiados (Conare) do Ministério da Justiça. O dado consta do relatório sobre o refúgio no País, divulgado nesta terça-feira (10). Conforme o documento do Conare, atualmente o País abriga 8.863 refugiados de 79 nacionalidades. O maior número de reconhecimentos envolve sírios, angolanos, colombianos, congolenses, libaneses, iraquianos, liberianos, paquistaneses e de pessoas provenientes de Serra Leoa. Além do aumento no contingente de reconhecidos, o Conare registrou forte expansão nas solicitações de refúgio. Nos últimos cinco anos, esses pedidos subiram 2.868%, passando de 966, em 2010, para 28.670, no ano passado. A maior parte dos refugiados que buscam abrigo no País possui idade entre 18 e 59 anos, em várias situações formadas por famílias compostas também por crianças e adolescentes.O fato é que facilmente esquecemos que
não se trata apenas de estatísticas, mas de pessoas reais, com nome, sobrenome e rostos individuais, que vivem em seu dia a dia situações dramáticas, e assumimos uma postura de distanciamento para não sermos tomado por um sentimento de impotência. Consequentemente – e infelizmente – abandonamos o problema. A não ser que eles tenham a oportunidade de se apresentarem diretamente a você e ganharem assim um nome, um sobrenome, um rosto e uma história que pode fazer toda a diferença. Ao ganharem contexto, eles ganham humanidade – que podem se transformar em oportunidades reais e um destino melhor. A questão é como multiplicar isso por algumas dezenas de milhares, evitando que os finais de suas histórias se transformem inevitavelmente em tragédias.


Problema/Desafio/Oportunidade


A questão, na verdade, não é sequer de compaixão individual, mas de inteligência solidária. Porque há um percentual significativo dos refugiados no Brasil, a maioria talvez, que têm alta qualificação profissional. Alguns até mesmo em campos e disciplinas que não são facilmente encontradas no país e que seriam extremamente úteis para o crescimento da nossa economia. Eles vieram para cá, porque acreditavam que seus países poderiam ser mais livres, ou pertenciam a crenças ou etnias que divergiam do que os governantes e seus aliados consideram ser o “certo absoluto”, ou porque cansaram de conviver com bombas que explodiam diariamente. Em todos os casos, vieram para cá, corajosa e amorosamente, porque optaram pela vida. E querem, até desesperadamente, provar que podem ser úteis e produtivos para o nosso país. Ações inclusivas, portanto, não deveriam interessar apenas a esses “neobrasileiros” (o neologismo parte do princípio de que apenas o ato de optarem pelo nosso país já deveria contar pontos para a inclusão deles no corpo da nossa nação) mas a todos os que nascemos aqui e somos quase todos, de primeira ou décima geração, imigrantes e, portanto, em última instância, também refugiados. Mas há o preconceito, fruto da ignorância. E a indiferença. E a inércia existencial. E tudo isso somado que é como se, no ideograma chinês que significa “crise” eliminássemos o elemento “oportunidade”, deixando apenas a realidade do “risco/perigo/caos”. Todas as inquietações expressas até agora visitavam com regularidade as conversas entre duas profissionais de comunicação e amigas, a empresária Luciana M. G. Capobianco e a jornalista Gisela Rao. E, aos poucos, uma ideia começou a tomar forma: criar uma plataforma digital que con-ectasse à sociedade brasileira esses seres que são acima de tudo humanos, mas que estão refugiados e precisam de ajuda para reconstruir suas vidas – em outras palavras, precisam principalmente de oportunidades de emprego. E assim nasceu o EstouRefugiado.com. br. Levantando a bandeira de que “o preconceito acaba quando a compreensão começa”, a plataforma convida as pessoas a concretamente “calçarem os sapatos” desses outros seres humanos, colocando-se no lugar delas e abrindo seus corações para um sentimento que é forte o suficiente para gerar bilhões de resultados de buscas no Google: amor, amour, Love, liebe.


Execução/Ativação


Luciana e Gisela, idealizadoras do projeto resolveram promover as oportunidades de emprego para os refugiados como um assunto de direitos humanos. A ideia é que, colaborativamente, poderíamos resolver um problema que é sério, atual – e muito próximo de cada um de nós. A primeira iniciativa do projeto envolveu a criação de um vídeo. Mas não um vídeo comum. A peça documenta um teste social em que usamos o Tinder, um aplicativo de encontros que incentiva os usuários, através do que denominam “matches”, ou seja, a descoberta de interesses comuns, a se conhecerem. A repercussão foi extraordinária. E antes mesmo que soletrássemos R-E-F-U-G-I-A-D-O, antes mesmo de sugerirmos qualquer ação, houve 40 ofertas espontâneas de emprego. Estávamos no caminho certo, sem dúvida. O segundo passo foi divulgar a plataforma e seus objetivos nas redes sociais. Com resultados crescentes. E animadores. De forma bem clara, bem direta, convidando os visitantes a oferecer um emprego. Mas fomos além desse monólogo. Desenvolvemos uma estratégia de divulgação que ao mesmo tempo garantisse a criação de consciência da marca EstouRefugiado e gerasse diálogos que resolvessem problemas concretos. Assim, nasceram as Campanhas de Financiamento Coletivo. Esse formato mostrou-se extremamente adequado porque a principal característica da plataforma EstouRefugiado é o seu dinamismo. E não poderia ser de outra forma: a questão dos refugiados é naturalmente dinâmica, na medida em que os contextos se alteram profundamente, rapidamente. Há sempre novos participantes na plataforma, tanto entre refugiados como entre as pessoas e as empresas dispostas a lhes dar oportunidade.Desde o início, procuramos deixar bem claro como seria feita essa participação e trabalhamos “around the clock” com o objetivo de que haja sempre novas iniciativas, novas formas de engajar a audiência. Mas, para termos a segurança de que teríamos condições de atualizar permanentemente a plataforma, seria necessário desenvolver formas inteligentes de captação de fundos. A solução, segundo Gisela Rao, nasceu porque nos demos conta de que “esperar por soluções grandiosas não é o único caminho para que as mudanças comecem a acontecer. A  mobilização deve ocorrer em várias esferas da sociedade e uma das ferramentas que pode tornar isso possível é o financiamento coletivo. ” A primeira dessas campanhas de financiamento coletivo atuou sobre uma questão aparentemente singela, mas de forte impacto na população de refugiados: a dificuldade que têm de buscar emprego simplesmente pelo fato de não disporem de dinheiro para a condução. O resultado foi incrível. Milhares de passes foram adquiridos com os fundos arrecadados e distribuídos para os refugiadosatravés da Caritas, uma entidade de
promoção e atuação social que trabalha na defesa dos direitos humanos, da segurança alimentar e do desenvolvimento sustentável solidário, e atua junto aos excluídos e excluídas em defesa da vida e na participação da construção solidária de uma sociedade justa, igualitária e plural.


Resultados


Assim como dissemos ao fazer o enunciado deste verdadeiro teorema social, os resultados apresentam dados eloquentes – mas que podem ser frios. Conquistamos mais de 500 ofertas de emprego, algumas dezenas de refugiados já empregados, dezenas de milhares de likes na página do projeto no Facebook, centenas de milhares de visualizações dos vídeos no YouTube, matérias na home do UOL e em muitos outros veículos online e offline... Todos esses números, entretanto, podem ser visualizados em uma planilha, gerar um aperto de mão, tapinhas nas costas, ou até mesmo um prêmio, sem alterar de fato a realidade, sem mover as condições dramáticas em que essa população vive um milímetro sequer. Mas esse não foi o caso do EstouRefugiado.com.br. O projeto mudou a vida de todas as pessoas envolvidas. Todas as pessoas envolvidas doaram ao projeto muito mais do que os seus esforços, doaram os seus corações. E ao agir assim, de forma compassiva, decidida e ardorosa, terminaram arrastando muitas outras. Já contamos com a adesão espontânea de dezenas de psicólogos, professores, designers e |outros profissionais. Conseguimos também a adesão de duas importantes entidades de promoção e atuação social, a Caritas e a ADUS – Instituto de Reintegração do Refugiado, que identificou na plataforma EstouRefugiado. com.br uma forma de atingir mais eficientemente um dos seus principais objetivos, a inserção dessas pessoas na sociedade brasileira através de uma orientação completa e efetiva que os torne autossuficientes para encontrar oportunidades e seguir o caminho de sua nova vida. Contamos também com o entusiasmo e a competência FGV Júnior, uma empresa de consultoria formada por graduandos da Fundação Getulio Vargas de São Paulo. Eles colocaram toda a capacitação técnica de alto nível fornecida pela faculdade aos estudantes envolvidos a serviço do projeto e nos ajudaram a desenvolver o “business plan” da empresa social em que o EstouRefugiado.com.br está se transformando.



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